terça-feira, 22 de maio de 2018













na tua falta escrevo. para não morrer. para que me não levem os pesadelos - é que há dias em que a morte me ronda. como um desassossego lento. a inquietar-me por dentro até aos ossos - procuro por ti. sinto a tua luz movimentar-se ténue em meu redor à procura da luz em mim. uma luz que se desvanece - a maldade da humanidade tem uma escuridão tamanha. e escrever-te isto dói pela não esperança que é admitir que sendo um óasis não chego para acalmar de vez todos os desertos de amor - entardeço com o mar no horizonte. e haverias de sorrir por me ver finalmente entardecer com água ao fundo - que pintura bonita é esta de assim ver perder-se o céu no mar e o mar no céu. um azul imenso a atenuar as sombras - e a beleza da casa. com peixes dentro. regressa-me. sinto o gosto da vida. a pele fresca no fim de tarde e sorrindo apareces-me como um fantasma. a pairar numa nuvem de luz inesgotável. tão singela. clara - que me esperes e guardes nesse lado do mundo onde a dor não perdura. onde o amor não se afugenta por sombras e escuridão. que me ampares e acalmes quando a esperança fugir e regresses sempre até mim quando a luz me faltar 











sexta-feira, 20 de abril de 2018




jonna jinton





Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.


Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.


Mas só a semente
oferece flores.

mia couto














e de manhã o canto dos pardais e um cheiro a musgo a invadir o corpo: quero uma cabana de costas voltadas para o mundo e coração aberto para o céu - construíste-me uma cabana de paus tratados e ervas daninhas. dizias que dali se viam melhor as estrelas - acreditei em cada palavra tua. fiz-me futuro em cada memória. por seres tu. por te ter em mim a amanhecer em cada dia novo. a ser luz e vida e graça em cada palavra - a vida fez-me de silêncio - orai e vigiai: palavra do senhor - orei e vigiei até as pálpebras se não aguentarem abertas. fecho os olhos à vida. quero consumir-me de amor para sempre - enquanto eu for vida escreverei o teu nome em cada árvore: valentina - tudo está consumado na memória do teu abraço. num silêncio perene até desaparecer à margem - avó. fiz-me árvore. cresci. vou encontrar-te agora para um sorriso inteiro.












terça-feira, 3 de abril de 2018




jonna jinton






As mãos pressentem a leveza rubra do lume
 repetem gestos semelhantes a corolas de flores
 voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
 encalhada como um barco nos confins do olhar

 ergues de novo as cansadas e sábias mãos
 tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
 o amargor húmido das noites e tanta ignorância
 tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
 quase nada

  al berto





tão longe que o mundo não nos pudesse agarrar e o corpo pequeno. de repente. cai para dentro do teu peito. o teu coração feito ninho. onde é possível nascer uma e outra vez. as vezes que forem precisas. até se ter força para enfrentar a escuridão de peito aberto - sigo os teus passos como sonhos que se tornaram estrelas no céu - em todas as noites percorro as tuas rugas. quero enfrentar o vazio. a certeza de ser só na vida - peço-te que regresses ao castanho dos meus olhos. ilumina-me - sei que me acompanhas e me percorres como eu te percorro. passo a passo. peço-te que regresses e te faças árvore. que me abraces forte até o coração ganhar raízes - voo com os pássaros. migro nas estações. rebento de amor. sufoco de tristeza. há em mim um sentir que não compreendo. um sentir tamanho que entontece - talvez um dia descubram que vivi como uma danada. sem ânsia. sem vergonha. sem dor. sem nada. pelo gosto de viver e ser assim - até ao fim dos meus dias descobrir-me em cada amanhecer e só tu. só tu me aplaudias em cada queda e reconhecias as minhas cicatrizes. como marcas de aprendizagem da alma - estaremos sempre juntas. sangue do meu sangue. alma da minha alma. 





domingo, 4 de março de 2018




Elizabeth Gadd









Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.

Fiama Hasse Pais Brandão






para me perder de vez em cada sorriso - subindo o rio. o caminho estreita-se. a textura dos seixos no pés nus - cai o sol nas paisagens da vida. tenho trinta anos e ainda não fiz obra - sou mulher de água e luz - deixo-me ir por entre a vereda. haveria daqui construir uma casa de madeira. com janelas e portas abertas para receber - uma casa. um lugar feito de memórias. memórias de dias felizes onde descansar o corpo quando a solidão me assola - cada partícula de luz que compõe o meu corpo grita o teu nome pela tarde adentro - o coração puro. feito de bondade. renascerá para um novo mundo. em cada olhar manifesta agora uma nova terra








segunda-feira, 22 de janeiro de 2018





teresa q.















Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

ferreira gullar




sobra-me o vento. falta-me o ar. estou na beira do penhasco mais alto da serra de sintra. já não sei voar - recordo-me dos precipícios de cesariny. quero morrer como as nuvens. perder forma. dissolver-me para sempre - por vezes tento a sorte. lanço-me às árvores. faço-me raiz do mundo. perco as sombras. outras vezes é o teu nome que me visita. consome - quero dar largas à realidade. fazer-me margem. voltar-me inteira. quero partir. de dentro para fora. reaver-me - mantenho-me ocupada. imagino como seria. dou voltas e voltas na rua de cima - quero alguém que me espante como um poema. que não principia nem acaba - regresso das nossas conversas sempre com o peito aberto. coração fora. cabeça adentro - quero escrever a eternidade em cada pulso. a eternidade é não saber de nenhum futuro - esqueço-me do mundo. lembro-me de tudo. só para me fazer ao largo. andar direita. ganhar pinta. ser senhora - um dia serei eu a obra. a manifestação plena do sonho. por agora nunca. 








quinta-feira, 28 de dezembro de 2017






jonna jinton








Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

miguel torga






e assim se fez mais um dia - a casa está gasta. há muito que as heras se apoderaram dela - que nome dar agora ao vazio. abandonar-me à memória das tuas mãos fiando. vidas - digo o teu nome com o cuidado de quem escreve um poema. tem de ser perene. tem de ser inteiro. manter-se fiel às rugas de cada dedo - fica comigo para sempre avó. talha-me as dadas - tenho estado doente. do coração e das ideias. faz-me aquela reza. toma conta de mim. que a loucura de me saber humana e a pressa de voltar para trás me atormentam - volto ao casulo - digo: avó quero ser como um pássaro - dizes: e serás minha filha. serás tudo o que quiseres - encurto a respiração. deixo-me entristecer - as montanhas a perder de vista. vou lançar o peito às paisagens. perder-me nelas. esquecer-me - nenhum natal me lembro de passar contigo. de nada me arrependo mais. a memória de cada natal sem ti pesa-me tanto. quero entregar-te todos os natais. fazer-te memória deles - consagro o meu corpo ao imaculado coração de maria. como me ensinaste. a intenção fará da oração o que eu quiser - estás sentada na mesa da cozinha. não te vejo. sinto-te. avó dá-me um sinal. visita-me em sonhos. amansa-me a noite. sossega o meu coração









quinta-feira, 14 de dezembro de 2017




Elizabeth Gadd









Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.




Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade 




recordo o teu nome. intenso como um batimento cardíaco. sílaba a sílaba, até adormecer - não estava preparada para perder-te - atirei-me ao precipício e fiz-me luz. uma luz forte como a tua - a mesma força de quem se fez terra. noite. madrugadas frias. sem nenhum medo que perturbe o corpo - na ânsia de te reencontrar entreguei o meu corpo à beleza das árvores. ao voo dos pássaros. às brisas de vento - na natureza fiz um ninho de amor - confio - que a Terra ainda te há-de trazer de volta. abrigar-me no teu peito - cada dia é uma bênção. vivo em plenitude. o meu propósito é este. encontrar a beleza do mundo e manifestá-la em cada sorriso. ser vida