terça-feira, 12 de setembro de 2017




Elizabeth Gadd








e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

al berto









nos dias de maior fragilidade sonho ser pássaro. deixo de enfrentar o vento com as asas. desisto de forçar o voo e entrego-me à corrente. plano com o peito pluma aberto - acredito em proteção divina. nas asas de anjo/pássaro que me cercam e amparam as quedas livres - sou livre. livre do mundo. livre da vida. mas não me livro do medo das pessoas. o medo do amor mais puro. do amor mais duro. o amor que entrega. que deixa ir. que livra - escreverei um tratado às pessoas que me fizeram sorrir - perto dos trinta custa-me mais o tempo desperdiçado. quero mais a solidão. o silêncio. a delicadeza. a serenidade. deixar cair o corpo com o dia. deixar sorrir a noite na boca - tenho esperança. tanta. tão forte - reconheço. do alto desta cordilheira. que todos os sonhos são livres. como amores. livres de partir. livres para deixar ir. livres de me livrar - pelo sonho caminho. com o coração na boca e um par de mãos verde esperança a decifrar o futuro. 




segunda-feira, 21 de agosto de 2017








jonna jinton







silencio
yo me uno al silencio
yo me he unido al silencio
y me dejo hacer
me dejo beber
me dejo decir

apuñalada por lo ausente
por la espera bastarda
renaceré a los juegos terribles
y lo recordaré todo

alejandra pizarnik




tudo o que aprendi do mundo foi o teu nome. por dentro dos dias escrevo consoantes e vogais. as do teu nome. um nome próprio de princesas. de fadas. de jóias raras. de noites claras - tantas luas novas vi nascer nos teus olhos. tantas noites cobertas de estrelas. a todas dei o mesmo nome. a mesma idade. o mesmo jeito triste de sonhar acordada - eras tu e continuarás para sempre a ser tu. a dar nome às luas novas de todos os planetas - existo dentro do silêncio. guardo em mim todas as palavras que se dizem de coração aberto sem que nenhuma boca se abra. perante a admiração dos olhos - cada dia é uma nova conquista. a conquista da vida que sempre se soube só. e deserta-me o corpo. tão cheio de sentimento - sinto o silêncio pairar sobre mim. como uma aura de luz socorrendo a minha pele. purgando-a das pressas deste mundo onde me acho - encontro-me longe - tenho fé nos deuses que habitam esta terra mascarados de pessoas comuns. heróis com nomes próprios como o teu. é essa fé que preenche quando a tristeza dos rostos se abate sobre mim. é dessa fé que me alimento. para essa fé caminho com o corpo feito de luz e no peito aberto o coração em carne viva - neste tempo-espaço eclipse que a terra conhece. sou lunar e sinto-me nova. 


















segunda-feira, 2 de janeiro de 2017






elizabeth gadd






Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar



Daniel Faria













esta noite sonhei com árvores altas e a tua voz segredando idas - por onde ir agora que tudo ardeu. nenhum laço me prende. nenhuma aragem me conhece. por onde partir. por que viagens procurar teu corpo inanimado - lembro-me dos teus silêncios. procuro preenche-los de afeto. e no fundo dos braços um ninho de pássaro. uma casinha de madeira - vem. quero ser capaz de mostrar-te que o tempo não me arrancou o sorriso. que na boca me nasceram jardins. que em nenhum lugar deixei a minha esperança. tantas vezes tão maior que eu - vem. quero dar-te outro mundo que este não me compreende. e dizer-te do voo que o corpo conheceu aquando do abandono. reconforta-me saber que melhores horas te aguardam. que outros homens te encantam. que outras nuvens te acolhem - a terra prometida regressa agora do alto do céu - quando ninguém acreditou eu vi. eu sei. quando ninguém por ti chorou. eu esperei - havemos de nos encontrar. está escrito e dito. e ninguém pode alterar promessas e testemunhos - e a maior fé é esta: dar sem medida








quinta-feira, 21 de julho de 2016






elizabeth gadd






Walk as if you are kissing the Earth with your feet.
thích nhất hạnh







ocupar de silêncio a casa. restabelecer os limites do medo que a alma não consegue apagar. respirar. tão fundo que o tempo o escute. tão alto que o mundo me fuja - permanecer em contemplação. encontrando-me em cada ser que a natureza envia ao meu encontro. humano e não humano. sempre vivo - trago a beleza do mundo tão funda em mim. incrostada na pele. e sei que o silêncio se reproduz nos meus gestos. é por dentro de mim que a terra ganha cor. que os pés se fazem caminho. que a alegria se faz sempre - à descoberta - que nenhuma ânsia perturbe cada passo. que nenhum tempo me ocupe. quero permanecer. fundir-me na luz. voar como os pássaros. chorar como os fetos. ser - ser este silêncio enorme que me habita. para sempre. 








quarta-feira, 6 de julho de 2016




ezgi polat









A mais radical solidão,
eu, com todo o meu corpo apenas,
pela primeira vez. Eu, que sempre
levava comigo somente os olhos, primeiro,
depois, o ouvido e o tacto. Ali,
naquela câmara do absoluto, do vazio,
do amplo - amplidão que multiplicava o vazio,
atenta enfim, a um cheiro ácido,
do grande Universo invisível

fiamma hasse pais brandão






render-me às evidências e de corpo ardente lançar-me a um cometa esperando que das cinzas se faça terra - era como fechar os olhos e ouvir canções antigas. que se estreitam na pele e. silenciosas. ocupam o peito de uma vez para sempre - ainda te ouço dizer: nenhum lugar foi feito para ti. és das estrelas - que as estrelas me encontrem porque em nenhum lugar me sinto. me sento. me quieto. e inquietar-me dói quando os dias assim passam - por vezes são teus gestos que interrompem a noite para me lembrar do quanto fomos felizes. e os padrões dos teus vestidos regressam da morte à procura de luz. digo-te: bom dia - não respondes - pergunto-te porquê       - não respondes.     
|escrevo para mim. que nenhum dia me morra como tu me morreste. que nenhum mês assim fique a perturbar-me o coração. que nenhum ano nos esqueça - os silêncios já não me magoam. acostumaram-se a mim. fizeram ninho no meu peito - à data do teu aniversário escrevo sempre muito. todas as histórias. porque nenhum lugar é este onde agora existo. esperando que alguma estrela me devolva à vida 










segunda-feira, 4 de abril de 2016





ezgi polat








A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente 

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado 

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada


ruy belo 









adeus. não mais permitirei que o mundo me perturbe - ninguém. no seu estado de sítio e alarme. conseguirá interromper a minha esperança - por vezes desperto para a realidade. acordo dos sonhos para dizer ao mundo que não mais voltarei aqui - adeus. sei bem que as minhas fraquezas são as minhas forças e sem medo insisto. perturbo cada passo. com a serenidade do caminho - nenhum norte de mim desiste. de tanto se fazem os meus dias. que as noites se ausentam - inventarei outros continentes. onde ser feliz. em cada entardecer farei um ninho e em cada rosto um sorriso - adeus









domingo, 3 de abril de 2016





elizabeth gadd 







Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

mia couto






fazer-me raiz e reconhecer que estive tanto tempo ausente. compreender que as manhãs se fizeram prisões e os dias sementes que nunca nasceram - perdoa-me ter interrompido o amor com desculpas de ausência. sem saber de mim perdi-me de nós - regresso agora da morte para te dizer que a luz nunca desapareceu. ocultada da vida renasce hoje em forma de raiz - sou hoje o princípio e o verbo de tudo. em tristeza descubro a alegria da aprendizagem - regresso aos teus braços com o corpo coberto de terra. desperto para o mundo com os olhos postos no caminho. no presente que cada manhã a vida me concede - a tristeza acalma e o coração iluminado sob às mais altas colinas para agradecer esta dádiva. mais um dia de vida